Estima-se que 23% da população brasileira consomem 60% da produção nacional de medicamentos, sendo os indivíduos com mais de 60 anos os maiores consumidores das medicações prescritas.

Dentre os medicamentos mais consumidos destacamos anti-hipertensivos, analgésicos, antiinflamatórios, sedativos e protetores gástricos. Idosos na faixa de 65 a 69 anos consomem em média 13,6 medicamentos por ano, enquanto aqueles entre 80 a 84 anos podem alcançar 18,2 medicamentos/ano.
Polifarmácia é uso contínuo de múltiplas medicações, e está fortemente relacionado com o aumento do risco de efeitos adversos.
Otimizar a terapia medicamentosa é parte essencial do cuidado com o idoso. A escolha da prescrição é um processo complexo, que leva em consideração a droga mais indicada, dose adequada, efetividade, toxicidade, efeitos colaterais e custos.
Uma prescrição adequada deve ter como objetivos:
– Eliminar medicações inapropriadas ou desnecessárias
– Monitorizar efeitos colaterais
– Evitar interação medicamentosa
– Utilizar o menor número possível de medicamentos
– Empregar a menor dosagem necessária – Estimular aderência do paciente à prescrição
É importante conhecer os fatores que afetam a absorção, distribuição, metabolismo e eliminação das medicações (farmacocinética), bem como os efeitos bioquímicos, fisiológicos e a ação da droga no órgão alvo (farmacodinâmica). As alterações orgânicas e funcionais da idade, associadas a uma maior prevalência de doenças nesta faixa etária, ocasionam comprometimento da farmacocinética e farmacodinâmica, com maior prevalência de efeitos adversos.
A absorção é o movimento feito pela medicação do local de sua administração (que pode ser via oral, subcutânea, intramuscular, intravenosa, ou retal) para a corrente sanguínea. A principal via de administração é a via oral, que depende da secreção ácida do estômago, do esvaziamento gástrico, da motilidade do intestino, do fluxo sanguíneo nos órgãos digestivos, do número e capacidade de absorção das células intestinais. A senescência, juntamente com o uso de múltiplas drogas, determinam alterações na absorção dos fármacos.
Distribuição é o processo de transferência da droga da corrente sangüínea para os tecidos. É influenciada pelas seguintes alterações da idade:
– Diminuição da água corporal total
– Diminuição da massa magra
– Aumento da de gordura corporal
Metabolização é a biotransformação da droga, que pode ocorrer no fígado, nos rins, pulmões e intestino. O fígado é o principal órgão responsável pela metabolização dos fármacos. Alteração no fluxo sanguíneo hepático, bem como a diminuição do número de células neste órgão, ocorrem em conseqüência do envelhecimento normal.
A excreção ou eliminação ocorre principalmente através dos rins. A filtração glomerular diminui de 35 a 50% entre os 20 e 90 anos, mesmo sem qualquer doença dos rins, devendo os medicamentos serem prescritos de acordo com a função renal. O sistema hepatobiliar também representa importante via excretora de medicamentos e de seus metabólitos.
É importante perceber que uma mesma droga pode atingir níveis plasmáticos muito elevados quando prescrita para um idoso na mesma dose usada por pacientes mais jovens. Isto é particularmente observado com medicações que deprimem o sistema nervoso central.
As medicações fitoterápicas, conhecidas por serem “naturais”, livres de contra-indicações e efeitos colaterais, podem representar um grande perigo. Nem sempre os pacientes relatam seu uso durante a consulta, e desconhecem seus efeitos adversos e suas interações com outras medicações prescritas. Nenhuma medicação deve ser utilizada sem prescrição médica, nem mesmo os fitoterápicos e as vitaminas.
Estudos americanos mostram que os efeitos colaterais causam quatro vezes mais hospitalizações em idosos do que em adultos jovens, e que os pacientes com maior risco são os usuários de antipsicóticos e cumarínicos (warfarina sódica). Ver abaixo tabela de medicações que interagem com a warfarina.
Alguns sintomas podem estar relacionados a efeitos adversos devido a polifarmácia no idoso. São eles: fadiga, perda de memória, confusão mental, incontinência urinária, instabilidade da marcha, e parkinsonismo.
Em resumo, podemos perceber que o idoso tem características peculiares que interferem enormemente no efeito das medicações, além de aumentarem o risco de efeitos adversos. É necessário evitar uso de drogas sem prescrição, e sempre informar ao médico qualquer alteração após início de uso de um novo medicamento.
Medicações que interagem com a warfarina
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Diminuem o efeito |
Potencializam o efeito |
| Antiácidos (Sucralfato)Benzodiazepinas
Barbitúricos Carbamazepina Corticosteróides Digitálicos Diuréticos Estrógenos Griseofulvina Haloperidol Paraldeído Rifampicina |
Antibióticos (sulfonamidas, cefalosporinas, quinolonas, macrolídeos, tetraciclinas, metronidazol, imipenem, isoniazida, aztreonam)Antifúngicos (fluconazol, itraconazol, cetoconazol)
AAS (> 1g/dia) Álcool Alopurinol Antiinflamatórios (acetaminofeno, ibuprofeno, fenilbutazona, piroxicam) Anticonvulsivantes (fenitoína, ácido valpróico) Antiarrítmicos (amiodarona, propafenona, propranolol, quinidina) Clorpropamida Clofibrato Genfibrozil Sinvastatina Dissulfiram Estrógeno Levotiroxina IMAO Inibidores seletivos da recaptação de serotonina Metildopa Omeprazo Pentoxifilinal Reserpina Tamoxifeno Tolbutamina Vit. do complexo B |
Karine Miranda – Geriatra e Clínica
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