Incontinência urinária é a perda involuntária de urina em quantidade e freqüência suficientes para causar problema social ou higiênico. Resulta de uma condição clínica, uso de medicações ou doença do trato urinário.
A incontinência não faz parte do processo do envelhecimento normal, contudo, sua prevalência aumenta com o avançar da idade. É mais freqüente nas mulheres que nos homens. Em mulheres idosas, a prevalência é de 15 a 30% na comunidade, e maior que 50% entre as moradoras de asilos. Nos homens, a prevalência é de um terço em relação às mulheres até os 85 anos, quando se torna igual.
Embora o envelhecimento por si só não seja causa de incontinência urinária, algumas mudanças funcionais e estruturais no sistema urinário, podem predispor à ela. Na mulher, a principal alteração é a redução da pressão máxima do fechamento uretral, conseqüente à diminuição da vascularização e atrofia dos tecidos que revestem a uretra, bexiga e vagina. Entre os homens, o aumento da próstata é o principal fator responsável pelas alterações do fluxo urinário. Em ambos os sexos ocorrem redução da contratilidade e da capacidade de armazenamento da bexiga, diminuição da habilidade para retardar a micção, e o aumento do volume residual na bexiga (maior que 50 a 100 ml).
Do ponto de vista clínico, a incontinência urinária pode ser classificada em transitória e estabelecida. A transitória ou reversível caracteriza-se por início súbito, geralmente associado a condições clínicas agudas, ou uso de medicações. Tende a resolver-se quando a causa é removida. As principais causas são delirium, infecções do trato urinário, uretrite e vaginite atróficas, restrição da mobilidade, aumento do débito urinário, medicamentos, impactação fecal, e distúrbios psiquiátricos. A incontinência estabelecida persiste por longo tempo, e pode ser causada por hiperatividade ou hipoatividade do detrusor, flacidez da musculatura pélvica, alteração da pressão uretral, obstrução da saída vesical ou distúrbios funcionais. Pode ser classificada em cinco tipos: urgência, esforço, transbordamento, funcional ou mista.
Além da idade, outros fatores de risco são: doença pulmonar (por causa da tosse), histerectomia, obesidade, doença neurológica (delirium, acidente vascular cerebral, doença de Parkinson), diabetes, distúrbios cognitivos, imobilidade, prostatectomia e demência.
Os sintomas mais comuns são urgência para urinar, perda de urina ao tossir, espirrar, ou rir, aumento da freqüência urinária, sensação de esvaziamento incompleto da bexiga, e jato urinário partido.
Por se tratar de uma condição multifatorial, é necessária uma avaliação ampla. Todos pacientes devem submeter-se a uma avaliação básica, que inclui história clínica, exame físico, medida do volume da urina residual, sumário de urina e urocultura. O exame urodinâmico só deve ser solicitado para pacientes selecionados, por ser caro, invasivo e não contribuir para diagnóstico em muitos casos.
O tratamento da incontinência estabelecida pode ser feito com medicamentos, medidas não-farmacológicas e cirurgia.
Os casos cirúrgicos devem ser avaliados individualmente, pelo especialista. A idade, isoladamente, não é contra-indicação para a cirurgia.
As medidas farmacológicas se baseiam na utilização de drogas anticolinérgicas, relaxantes da parede vesical, agonistas colinérgicos, alfa-agonistas e estrógenos.
As medidas não-farmacológicas envolvem manipulação ambiental para facilitar o acesso ao banheiro e terapias de comportamento. Dentre as terapias comportamentais, existem aquelas que dependem da colaboração do paciente, e as que dependem da ação do cuidador. Em relação às medidas dependentes do paciente, temos: o treinamento vesical, usado para suprimir a instabilidade e indicado para pacientes mental e fisicamente capazes, com incontinência de urgência (consiste em estabelecer pequenos intervalos entre as micções, e instruir o paciente para contrair a musculatura pélvica no momento da onda de urgência, para após dirigir-se ao banheiro); e a fisioterapia do assoalho pélvico, que tem por objetivo aumentar a força e volume dos músculos do assoalho, feita por profissionais treinados. Dependem da ação do cuidador o treinamento do hábito urinário, que visa estabelecer intervalos variáveis entre as micções baseados no padrão usual do paciente, e micção programada, que é a condução do paciente ao banheiro em intervalos fixos, independente do desejo de urinar.
Dois terços dos pacientes podem responder às medidas terapêuticas propostas, e um terço pode beneficiar-se de medidas paliativas.
Fonte: tratado de geriatria e gerontologia, 2a edição; NEJM
Karine Miranda – Geriatra e Clínica
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